INTRODUÇÂO:
A história do surgimento do curso de farmácia no Brasil inicia-se entre os séculos 18 e 19. No início do século 18 há o desenvolvimento do estudo e das técnicas das ciências da saúde no Brasil, incentivado pela intensa atividade científica e médica na Europa, sendo assim, surgem os primeiros cursos voltados para a atuação médica e farmacêutica no país. Originalmente, o ensino da farmácia era estritamente técnico e empírico, ou seja, os indivíduos interessados em atuar nas boticas (atuais drogarias) trabalhavam como ajudantes dos boticários, os quais, por sua vez, ensinavam e orientavam os alunos, além de emitirem a carta de examinação ou a licença para atuação, após os períodos de exames classificatórios.
A materialização e a inserção da farmácia na área acadêmica se deu em 1809, ano de criação da cadeira (matéria) de farmácia no curso de medicina das faculdades de medicina do Rio de Janeiro e da Bahia, porém, essa apenas se desvinculou da medicina com a
criação da Escola de Farmácia, em Ouro Preto. Os incentivos para a formulação do curso independente de farmácia no Brasil, a Escola de Farmácia, tiveram origens europeias, acerca da importância do estudo da saúde e do combate ao charlatanismo médico, e foram
concretizados pelos membros da Assembléia mineira, por meio do decreto da Lei n°140, em 4 de abril de 1839. Dessa forma, surgem as escolas de farmácia em Ouro Preto e em São João del-Rei, sendo a primeira desenvolvida e a segunda descartada, por falta de verbas.
A inauguração da Escola de Farmácia de Ouro Preto ocorreu no dia 7 de setembro, no mesmo ano de sua criação, sendo a primeira aula ministrada pelo professor Eugênio Celso Nogueira. O ingresso dos alunos dependia de critérios rigorosos, como o conhecimento das
operações aritméticas, da leitura e da escrita, além do francês. Assim, foi consolidado o ensino da farmácia no Brasil, totalmente desvinculado da medicina e avançado nas pesquisas de saúde pública e na formação dos profissionais farmacêuticos, sendo a única escola de farmácia até o ano de 1896, com a criação da Escola Livre de Farmácia e Química Industrial de Porto Alegre.
1839 à 1854: POUSADA MONDEGO
Primeiro edifício da Escola de Farmácia de Ouro Preto, localizado no Largo de Coimbra, 38.


A primeira fotografia, a esquerda, foi retirada do arquivo do Museu da Farmácia, a segunda é autoral, tirada no dia 09/07/2026.
Foi neste edifício que nasceu a primeira Escola de Farmácia da América Latina. Criada por decreto do Governo Provincial de Minas Gerais, em 4 de abril de 1839, a instituição surgiu
para organizar o ensino farmacêutico em um período em que predominava a medicina popular. Seus primeiros anos foram marcados pela escassez de recursos financeiros: a Escola iniciou suas atividades com apenas dois professores, que lecionavam sem receber salário, além de não contar com instalações, equipamentos e laboratórios próprios para o ensino prático. Apesar das dificuldades, lançou as bases da formação farmacêutica no
Brasil. Atualmente, o edifício abriga uma pousada e está localizado próximo à tradicional Feira de Pedra-Sabão de Ouro Preto, preservando a memória desse importante marco da
educação e da ciência brasileira.
1854 à 1872: FAOP
Segundo edifício da Escola de Farmácia de Ouro Preto, localizado na Rua Getulio Vargas 185.


A primeira fotografia, a esquerda, foi retirada do arquivo do Museu da Farmácia, a segunda é autoral, tirada no dia 09/07/2026.
Em 1854, a Escola de Farmácia transferiu suas atividades para o prédio da Inspetoria da Instrução Pública, onde também funcionavam o Liceu e o Ginásio Mineiro. Nesse período, seus recursos financeiros foram regularizados pelo Governo Provincial, e a instituição passou a ser subordinada à Diretoria Geral da Instrução Pública, fortalecendo sua organização administrativa. Apesar desses avanços, a Escola continuou enfrentando limitações estruturais: sem instalações próprias para todas as atividades práticas, parte do ensino ainda era realizada em estabelecimentos particulares. Atualmente, o edifício abriga o Núcleo de Arte da Fundação de Arte de Ouro Preto (FAOP), onde a história da educação continua a dialogar com a produção artística e cultural da cidade.
1872 à 1876: BRUMAS HOSTEL
Terceiro edifício da Escola de Farmâcia de Ouro Preto, localizado na Rua Padre Rolim, 167 Anexo á Igreja de Nossa Senhora das Mercês e Misericórdia.


A primeira fotografia, a esquerda, foi retirada do arquivo do Museu da Farmácia, a segunda é autoral, tirada no dia 09/07/2026.
O sobrado da Rua Padre Rolim, antiga Rua das Mercês, foi estritamente temporário, atuando de 1872 à 1876 como sede do curso de farmácia, devido às dificuldades de apoio financeiro sofridas, uma vez que a Escola ainda não era vinculada ao município, dependendo, assim, de doações externas e apoio dos grupos mais abastados da cidade. Após esse período, foi instalada e inaugurada a Escola de Minas de Ouro Preto, nesse mesmo edifício, na data de 12 de outubro de 1876, voltada para a preparação dos engenheiros na exploração mineral e metalúrgica.
1876 à 1882: POUSADA VILA RICA
Quarto edifício da Escola de Farmâcia de Ouro Preto, localizado na Rua Felipe dos Santos 165.


A primeira fotografia, a esquerda, foi retirada do arquivo do Museu da Farmácia, a segunda é autoral, tirada no dia 09/07/2026.
Localizada na Rua Felipe dos Santos, o tradicional casarão da atual pousada Vila Rica abrigou o curso entre os anos de 1876 à 1882, período em que a Escola de Farmácia sofria com as diversas instabilidades financeiras e faltas de recursos, visto que grande parte dos aparelhos laboratoriais e didáticos ainda eram escassos. Tais dificuldades seriam logo superadas no ano de 1882, com o apoio do Governo Provincial de Ouro Preto.
1882 à 1889: PREFEITURA
Quinto edifício da Escola de Farmâcia de Ouro Preto, localizado na Praça Barão do Rio Branco, 12, Pilar.


A primeira fotografia, a esquerda, foi retirada do arquivo do Museu da Farmácia, a segunda é autoral, tirada no dia 09/07/2026.

Foto da turma de 1889, retirada do arquivo do Museu da Fármacia
Atual Secretaria Municipal de Fazenda da Prefeitura de Ouro Preto, este edifício abrigou temporariamente a Escola de Farmácia nos anos de 1882 à 1889. Tal permanência foi possível, pois a Escola, à partir de 1883, passou a ser vinculada ao Governo da Província e, com isso, as disponibilidade de investimentos aumentaram, propiciando um maior acervo de equipamentos e mobílias. Além disso, foi o prédio em que a primeira mulher do curso de farmácia de Ouro Preto, Maria de Vasconcellos, se formou, em 1889, resistindo, assim, aos estereótipos patriarcais da época, em que as mulheres necessitavam da autorização de seus maridos para exercer a profissão. Na foto, observa-se Maria de Vasconcellos no centro, entre os demais alunos de sua turma.
1890 à 1891: CAEM
O quinto edifício da Escola de Farmâcia de Ouro Preto, localizado na Praça Tiradentes, nº 9.


A primeira fotografia, a esquerda, foi retirada do arquivo Público Mineiro, a segunda é autoral, tirada no dia 09/07/2026.
Com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, a Escola de Farmácia de Ouro Preto foi transferida, em 4 de fevereiro de 1890, para o edifício que atualmente abriga o Centro Acadêmico da Escola de Minas (CAEM), antiga sede da Assembleia Provincial. A mudança ocorreu devido às condições precárias da antiga instalação da Escola, resultado da mobilização de sua Congregação junto ao governo estadual. Durante esse período, o prédio passou a abrigar simultaneamente a Escola de Farmácia e o Hospital da Santa Casa, tornando-se um importante centro de ensino e assistência à saúde em Ouro Preto e foi nesse local que surgiu a Sociedade Beneficente da Escola de Farmácia, formada por ex-alunos que arrecadaram recursos para melhorar a instituição. Apesar das conquistas, a instituição ainda enfrentava dificuldades financeiras e estruturais.
1891 à 1892: AI SCHOOL
O sexto edifício da Escola de Farmâcia de Ouro Preto, localizado na Rua Conselheiro Santana, 5 – Pilar.

Foto autoral tirada no dia 09/07/2026, não há registro físico do prédio em seu período como sede da Escola de Farmácia.
A sede da Escola de Farmácia de Ouro Preto, inaugurada em 1891 era um chalé, localizado no centro histórico, o qual fora demolido e posteriormente substituido pelo prédio da Escola de Idiomas, AI School. O edifício consolidou-se como um dos principais símbolos da resistência estudantil e da mobilização de toda a comunidade acadêmica da instituição contra a negligência governamental em relação à ciência e ao ensino da prática farmacêutica em Minas Gerais.
CURIOSIDADE
Informações extra sobre o edíficio, clique no triangulo.
Em 1891, com a inauguração da iluminação elétrica em Ouro Preto, a Escola de Farmácia deixou o prédio ao lado do Palácio e instalou-se em um chalé na Rua Conselheiro Santana, onde atualmente funciona a AI School. A mudança iluminava verdades obscuras que desafiavam o futuro da instituição. Segundo Victor Godoy, naquele mesmo ano o estudante Hemetério de Paula Matias, sob o codinome “M”, denunciou no Jornal de Minas a negligência destinada ao curso de Farmácia, que funcionava sem laboratórios e em ambientes insalubres, enquanto outras instituições possuíam instalações modernas. Após investigar a denúncia, o jornal revelou ainda que a doação de 30 a 40 contos de réis do Visconde de Ibituruna, destinada à Escola, havia sido desviada pelo governo antes de chegar à instituição.
A repercussão mobilizou estudantes, professores e a sociedade. Uma comissão reuniu cerca de 300 assinaturas e encaminhou ao governador um pedido por maior assistência à Escola, marcado pelo apelo: “Descei, cidadão, do vosso palácio até o fundo de Ouro Preto… é aí que funciona a Escola de Farmácia.” Em resposta à mobilização, o governo de Antônio Augusto de Lima concedeu, em abril de 1891, um crédito de 50.000$ para a instalação da Escola em um local mais adequado. Assim, o chalé da Rua Conselheiro Santana tornou-se símbolo da resistência da Escola de Farmácia de Ouro Preto, da luta pela educação pública, pela ciência e pela valorização do ensino farmacêutico.
1892 à 2013: ATUAL MUSEU DA ESCOLA DE FARMÁCIA
O sétimo edifício da Escola de Farmâcia de Ouro Preto, localizado na Rua Costa Sena, 171.


A primeira fotografia, a esquerda, foi retirada do arquivo do Museu da Farmácia, a segunda é autoral, tirada no dia 09/07/2026.
Após décadas de instabilidade, em 1892, a Escola de farmácia finalmente se instalou em um local fixo, no qual funcionou por cerca de 120 anos, o histórico prédio da Rua Costa Sena, antiga Travessa dos Jangadeiros.
O edifício da Rua Costa Sena possui grande importância histórica. Nele funcionou o congresso constituinte Mineiro, responsável pela promulgação da primeira constituição republicana de Minas Gerais. Em 2013, praticamente todas as atividades de graduação da Escola foram transferidas para a Universidade Federal de Ouro Preto, no Morro do Cruzeiro e, após essa mudança, o prédio passou a funcionar apenas como museu, o Museu da Escola de Farmácia. A Formação do acervo do museu se iniciou na década de 1960, quando professores da Escola adquiriram o mobiliário da antiga Pharmacia Magalhães, estabelecimento que funcionou em Ouro Preto entre o final do século XIX e o início do século XX. Com o passar dos anos, foram incorporados ao acervo diversos materiais históricos que estavam distribuídos pela instituição. Nele é possível encontrar materiais didáticos de origem européia, mobiliário, drogas e equipamentos do final do século XIX. Ademais, há também documentos com registros da vida acadêmica e administrativa da Instituição, livros, periódicos e teses com ênfase no séc XIX e início do séc XX.
2013 – Atualmente: CAMPUS MORRO DO CRUZEIRO.
O oitavo edifício da Escola de Farmâcia de Ouro Preto, localizado na Rua Professor Paulo Magalhães Gomes, 122 – Bauxita

Foto autoral, tirada no dia 09/07/2026.
O Campus Morro do Cruzeiro é a sede atual da Escola de Farmácia. Esta instituição foi incorporada à UFOP em 1968, mas o campus atual foi inaugurado em 21 de novembro de 2013. O edifício é composto por dois prédios: o primeiro, com 920,00 m2, é destinado à administração, enquanto o segundo é dividido em três blocos, sendo um deles voltado para pesquisa e graduação, com 1.320 m2, e os outros dois para graduação, totalizando 2.350
m2. A partir de 1970, o curso passou a ser predominantemente frequentado por mulheres, em um curso que anteriormente tinha maior presença masculina. Além disso, o curso oferece diversos programas educacionais, como o Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas (CiPharma), que disponibiliza mestrados e doutorados, e também cursos de graduação lato sensu em Citologia Clínica e Análises Clínicas. A escola também participa do Doutorado em Nanotecnologia Farmacêutica, que é organizado por uma rede nacional de instituições educacionais, e é membro da Rede Mineira de Nanobiotecnologia da Fapemig.
REFERÊNCIAS:
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PAULA, Leandro Silva de; CARVALHO, Rosana Areal de. As reformas educacionais na Escola de Farmácia de Ouro Preto (1890-1911). Acta Scientiarum. Education, Maringá, v. 42, e48574, 2020.
GODOY, Victor Vieira de. A Escola de Farmácia de Ouro Preto: a memória sublimada. São Paulo: Metalivros, 2019. Escola de Farmácia de Ouro Preto. In: Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930). Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.
CARVALHO, José Murilo. A escola de Minas de Ouro Preto: o peso da glória [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2010, 196p. DOI: https://doi.org/10.7476/9788579820052.
CUNHA, Luiz Antônio. Ensino superior e universidade no Brasil. In: LOPES, Eliana Marta Teixeira, FARIA FILHO, Luciano Mendes VEIGA, Cynthia Greive. (orgs.). 500 anos de educação no Brasil. 2ªed. Belo Horizonte: Autêntica, 2011.
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GOMES, Alberto Coelho de Magalhães Apontamentos Históricos da Escola de Farmácia de Ouro Preto, segunda edição atualizada, abril de 1961.
ROMANELLI, Otaíza. História da educação no Brasil 1930-1973. Petrópolis, Vozes, 1978; ARANHA, Maria Lúcia de A. História da Educação. São Paulo, Moderna, 2002. RIBEIRO, M. L. História da Educação Brasileira. A Organização Escolar. Campinas, Autores Associados, 2003.
SAVIANI, Dermeval. Vicissitudes e perspectivas do direito à educação no Brasil: abordagem histórica e situação atual. Educ. Soc. [online]. 2013, vol.34, n.124, pp.743-760. ISSN 01017330. DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0101-73302013000300006.
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https://youtu.be/fo8CItEdtn8?si=szHRtcEHKGx6wUfD
https://cff.org.br/sistemas/geral/revista/pdf/137/022a026_entrevista_martha_lana.pdf
https://museudafarmacia.ufop.br/
https://www.guiadasartes.com.br/minas-gerais/ouro-preto/museu-da-pharmacia