O Ensino Hoje

A Reformulação do currículo e novas áreas de atuação. Ao longo da segunda metade do século XX, a formação farmacêutica em Ouro Preto passou por mudanças importantes. A profissão deixou de estar ligada apenas às farmácias e começou a ganhar espaço em áreas como análises clínicas, microbiologia e pesquisa científica.

Um dos primeiros sinais dessa transformação ocorreu em 1928, quando o professor Jovelino Mineiro publicou o livreto Análise de Urina, buscando atender às necessidades dos estudantes e incentivar o estudo dos exames laboratoriais. Nos anos seguintes, outros professores contribuíram para fortalecer essa área, entre eles Antônio Fortes, catedrático de Química Analítica e microscopista da Santa Casa de Misericórdia, Raimundo Pacífico Homem, Aníbal Woods de Lacerda e Maria José da Mota Cabral. A partir da década de 1940, técnicas laboratoriais mais modernas passaram a fazer parte da rotina da Escola.

Outro nome de grande destaque foi Gerardo Trindade, médico sanitarista formado pela UFMG e professor da instituição desde 1939. Como responsável pela disciplina de Microbiologia, incentivou os alunos a atuarem nas áreas de microbiologia, parasitologia e análises clínicas. Além da carreira acadêmica, chefiou durante muitos anos o Posto de Higiene de Ouro Preto. Entre suas contribuições estão a identificação da participação dos ratos na transmissão da febre murina em Minas Gerais e o registro da presença do raro artrópode Peripatus acacioi na região. Seu trabalho inspirou Joaquim Claudino Filho, fundador do Laboratório Claudino em 1957, um dos primeiros laboratórios oficialmente registrados no Conselho Regional de Farmácia.

Uma das maiores mudanças ocorreu com a Reforma Curricular de 1962, estabelecida pelo Parecer nº 268 do Conselho Federal de Educação. O curso passou a ter quatro anos de duração e surgiu a formação do farmacêutico-bioquímico. No último ano, o estudante podia escolher entre diferentes áreas de especialização, como Indústria Farmacêutica e de Alimentos, Controle de Medicamentos e Análise de Alimentos, Química Terapêutica ou Laboratório de Saúde Pública. Na prática, a maioria dos estudantes optava pela habilitação em Análises Clínicas, enquanto poucos seguiam para a indústria farmacêutica, principalmente devido ao baixo investimento nacional em pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

O debate sobre a Bioquímica

No final da década de 1960, a Escola enfrentou um período de grande mobilização estudantil. O principal motivo foi a retirada da palavra “Bioquímica” da titulação oficial em mudanças realizadas na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Muitos estudantes acreditavam que essa alteração diminuía a importância da profissão farmacêutica e limitava sua atuação nos laboratórios.

O Diretório Acadêmico Jovelino Mineiro, presidido por Jerônimo Peterman, organizou manifestações juntamente com estudantes de Belo Horizonte para defender a permanência da denominação. Como resultado desse movimento, a instituição chegou a utilizar temporariamente o nome Escola de Farmácia e Bioquímica. Nesse mesmo período, em 1966, começaram as obras do Instituto Farmacêutico e Bioquímico, concluídas em 1970 durante a gestão do diretor Vicente Elena Trópia. A construção contou com recursos da Comissão Supervisora do Plano dos Institutos (Cosupi) e apoio político de Clóvis Salgado da Gama.

A criação da UFOP

Com a Reforma Universitária de 1968, o governo determinou que escolas superiores isoladas fossem incorporadas a universidades. Em Ouro Preto, havia preocupação de que a
Escola de Farmácia e a Escola de Minas fossem transferidas para outras universidades federais.

Para evitar essa mudança, professores, estudantes e autoridades locais organizaram uma comissão em defesa da criação de uma universidade na cidade. O esforço deu resultado com a publicação do Decreto-Lei nº 778, em 21 de agosto de 1969, que criou oficialmente a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

A nova universidade foi formada pela união de duas instituições históricas: a Escola de Farmácia, fundada em 1839 e considerada a mais antiga da América Latina dedicada ao ensino farmacêutico independente da Medicina, e a Escola de Minas, criada em 1876 por Claude Henri Gorceix com apoio de Dom Pedro II.

Primeira turma de Farmácia e Bioquímica após a criação da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), formada em 1969.

Inicialmente, as instituições receberam os nomes de Faculdade Federal de Farmácia e Bioquímica e Faculdade Federal de Minas e Metalurgia. Anos depois, em 1979, a expansão da universidade alcançou a cidade de Mariana, onde foi criado o Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS).

A ditadura militar e a vigilância sobre a universidade

Os primeiros anos da UFOP aconteceram durante a ditadura militar, período marcado por forte fiscalização das universidades brasileiras. Documentos produzidos pelos órgãos de repressão mostram que professores e dirigentes da instituição eram frequentemente monitorados.

O reitor Orlando Magalhães Carvalho foi alvo de denúncias anônimas que o acusavam de permitir a presença de professores considerados de esquerda. Entre os docentes investigados estavam José Ramos Dias, acusado de ligação com o comunismo; Vicente Maria de Godoy, apontado como intelectual de ideias esquerdistas; e Antônio Fortes, que passou a ser observado devido ao parentesco com o estudante Hélcio Pereira Fortes, integrante da luta armada contra o regime.

Consolidação da UFOP e expansão do campus

Nos primeiros anos, a UFOP funcionava como uma federação de escolas relativamente independentes. Apenas a partir da década de 1980 ocorreu a consolidação de um campus integrado no Morro do Cruzeiro. Em 1979, após a saída do reitor Teódulo Pereira, Antônio Fagundes de Souza, vindo da Universidade Federal de Viçosa, assumiu a reitoria e teve papel importante na organização administrativa da universidade. Nesse período também foi criado o Instituto de Ciências Exatas e Biológicas (ICEB),responsável pelas disciplinas básicas dos cursos da área. A mudança provocou debates entre as escolas tradicionais, que temiam perder autonomia acadêmica.

Obras de construção do campus do Morro do Cruzeiro, onde posteriormente foi instalado o Instituto de Ciências Exatas e Biológicas (ICEB), marco da expansão da UFOP.

Modernização, pesquisa e extensão

A partir das décadas de 1970 e 1980, a Escola de Farmácia passou por um processo de renovação do corpo docente, recebendo professores formados em diversas universidades brasileiras, como UFMG, USP, UFRJ, UNESP, UFG e UFJF. Essa diversificação fortaleceu a pesquisa científica e a pós-graduação.

Primeira turma formada sob a nova Matriz Curricular implantada pela Reforma Curricular de 1962,concluindo o curso em 1971.

Entre os principais avanços destaca-se a criação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Farmacêuticas (CiPharma), com cursos de mestrado e doutorado voltados ao desenvolvimento de medicamentos, bioativos e nanotecnologia.

Na extensão universitária, ganharam destaque o Laboratório Piloto de Análises Clínicas (Lapac) e a Farmácia-Escola, que prestam serviços à população em parceria com o Sistema Único de Saúde (SUS).

Outro importante centro de pesquisa é o Núcleo de Pesquisas em Ciências Biológicas (Nupeb), responsável por estudos em imunopatologia, biologia molecular e desenvolvimento de vacinas, incluindo pesquisas sobre leishmaniose visceral canina.

Em novembro de 2013, a Escola de Farmácia passou a funcionar em um prédio moderno localizado no Campus Morro do Cruzeiro. O edifício histórico foi preservado e atualmente abriga o Museu da Farmácia e o Arquivo Histórico, mantendo viva a memória da instituição.

A trajetória da Escola de Farmácia de Ouro Preto demonstra sua constante capacidade de adaptação às transformações científicas, educacionais e sociais do país. Desde a reformulação curricular e a ampliação das áreas de atuação do farmacêutico até sua integração à Universidade Federal de Ouro Preto, a instituição consolidou-se como referência no ensino, na pesquisa e na extensão. Ao preservar sua história por meio do Museu da Farmácia e do Arquivo Histórico, ao mesmo tempo em que investe em inovação científica e na formação de profissionais qualificados, a Escola reafirma seu compromisso com o desenvolvimento da ciência farmacêutica e com a promoção da saúde, mantendo vivo um legado iniciado em 1839 e que continua a contribuir para a sociedade brasileira.